Monday, August 15, 2005

Augusto dos Anjos: A Estética da Putrefação

Gostaria, neste post, homenagear um dos maiores poetas da nossa língua, com uma pequena e humilde análise de um dos seus poemas.


Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas-
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra.

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
e há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialidade inorgância da terra !

Augusto dos Anjos.

Acima, temos um dos mais conhecidos sonetos do grande poeta paraibano, Augusto dos Anjos, um poeta singular, cuja profundidade e crueza de sua obra ,somente um livro, intitulado EU, posteriormente publicado como Eu e outras poesias, ainda deixam perplexos muitos leitores não acostumados com seu estilo.
Como foi dito, Augusto dos Anjos é autor de uma obra, nesta obra, temos poemas que sugerem uma angustiante visão da existência, espelham a alma de um homem destinado ao sofrimento, revelam espaços sombrios e tenebrosos, em que não há lugar para a felicidade.
São vários os temas apresentados no livro, temos constantes referências à matéria putrefata, cemitérios, cadáveres, urubus, morte, tudo incolor, em que a imagem de vermes que "declaram guerra à vida" parece percorrer a obra causando no leitor um mal estar catártico, levando-o à constatação da fragilidade da vida e do destino inexorável de toda a existência; a morte, o fim o NÃO-SER.
Apresenta o mundo fenomênico como um caos, um pesadelo, em que não há despertar, em que não há fuga, e resta somente a constatação de que ele é um espelho do mundo interior, um verdadeiro carrossel de angústia e sofrimento.
Augusto dos Anjos sofreu influência de muitas escolas e estilos de época, entre eles podemos perceber o Parnasianismo e o Simbolismo. Do Parnasianismo, Augusto herdará a predileção por sonetos, o rigor da forma, a preferência por rimas ricas , versos decassílabos, rigidez métrica.
Quanto às características simbolistas, podemos perceber a temática da morte, as aliterações e assonâncias que contribuem para a musicalidade do poema.
Um dos aspectos mais constantes na obra de Augusto dos Anjos é a freqüente utilização de terminologias científicas; Carbono, Amoníaco, inorgânico, entre outros.

Análise do poema

Agora, vamos a uma resumida análise do poema acima (Psicologia de um vencido).

A composição é um soneto (composição poética com dois quartetos e dois tercetos).

Métrica: São versos decassílabos, Eu / fi /lho /do /car/bo/no e/ do
a/mo/nía/co. (A escansão dos outros versos correm por conta do leitor)

Esquema rímico: abba abba ccd eed
abba - rimas opostas.
Temos presença de rimas ricas (rimas entre palavras de classes gramaticais diferentes) em rutilância/infância e um rima rara em roê-los/cabelos.

Quanto à estrutura do poema, percebemos a forte presença do Parnasianismo.

TEMAS DO POEMA: Pessimismo, desagregação, putrefação da matéria, auto-depreciação, morte, fim.
Notar também a presença do vocabulário científico; Carbono, Amoníaco.

Comentários gerais, verso a verso:

Psicologia de um vencido.

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Comentários: O poema começa introduzindo seu primeiro personagem, o EU, as duas primeiras estrofes serão um desdobramento deste personagem. Prestem atenção para a igualdade Eu = filho do carbono = Monstro de escuridão e rutilância.Em primeiro lugar, notem a palavra carbono, o carbono é um elemento químico, que forma vários compostos importantes, dentre eles os mais importantes são os compostos
orgânicos presentes em todos os vegetais e animais, ou seja o carbono é uma das bases da vida, o eu-lírico ao se declarar filho do carbono esta o fazendo no sentido de informar que ele é filho da matéria no seu sentido mais simples. Nesta primeira estrofe já percebemos uma característica marcante na poesia de Augusto dos Anjos, que é a utilização da
terminologia científica.

Monstro de escuridão e rutilância.

Agora vejam a palavra MONSTRO, trata-se da depreciação do eu-lírico, já prenuncia o tema do poema que é a extinção total do EU, aqui temos uma outra característica na poesia do Augusto, é de que o Ser Humano não é bom, tal como o Humanismo pregava, ele na verdade é mal, e é preciso um grande esforço no sentido de produzir algo considerado bom...(vide o verso "O AMOR DA HUMANIDADE É UMA MENTIRA", no poema
Idealismo).
Também devemos atentar à antítese escuridão/rutilância (brilho).

Sofro, desde a epigênesis da infância.

Comentários: Aqui está uma das primeiras propriedades do eu -lírico, a primeira das ações, ele SOFRE, e sofre sempre, desde o começo. Epigênesis: Teoria da formação dos seres por geração gradual.

A influência má dos signos do zodíaco.

Comentários: Além de ter uma dor contínua e duradora esta dor chega a níveis cosmológicos, é universal, até os astros estão contra o eu- lírico, não há fuga.

Profundissimamente hipocondríaco,

Comentários: Aqui hipocondria vem como sinônimo de melancolia, esse verso é considerado um milagre técnico, pois notem que ele é um decassílabo com apenas duas palavras !!
Esse verso é uma introdução para a descrição do ambiente poético do primeiro personagem.

Este ambiente me causa repugnância...

Comentários: Aqui está o efeito do ambiente poético sobre o poeta, o ambiente de dor e ânsia cria uma determinada repugnância no eu-lírico. Neste ponto vemos a terrível face dos ambientes poéticos em Augusto, ele cria mundos e espaços em que predominam a dor, o sofrimento, em que as boas ações são vistas somente como máscaras, um mundo não colorido.
Nota: O que eu chamo de ambiente poético é o que alguns autores chamam de espaço.

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia,
Que sobe a boca de um cardíaco.

Comentários: Mais uma incursão de Augusto dos Anjos na fisiologia, ele se utiliza desta informação para piorar ainda mais o espaço (ambiente) deste poema, note que os verbos estão no presente.
Aqui termina a descrição poética do primeiro personagem do poema, resumindo ele é o EU (Eu-lírico), é filho da vida (carbono), é um monstro, sofre, vive num ambiente de total sofrimento que lhe causa repugnância.

Já o verme - Este operário das ruínas.

Comentários: Aqui esta o segundo personagem, que vai fazer oposição ao primeiro, é o antagonista, é chamado de operário, ou seja alguém que realiza uma determinada obra, que opera.

Que o sangue podre das carnificinas.

Comentários: Verso surpreendente, que assusta aqueles acostumados com um lirismo sentimental e belo, mostra palavras que não pertencem ao léxico poético (podre, carnificinas), este verso nos traz uma das inovações da obra de Augusto dos Anjos que é a desvinculação da arte com o conceito de beleza, o descompromisso da palavra com o belo.
Obs: A palavra "podre" é muito comum na obra de Augusto.

Come, e à vida em geral declar guerra.

Comentários: Aqui temos a ação do adversário do eu-lírico, ele come, ele declara guerra à vida, cuja base é o carbono. (e quem é o filho do carbono ???)

Anda a espreitar meus olhos para roê-los.

Comentários: Esse é o desdobramento do conflito EU x Verme, ele (o verme) espreita os olhos (aparelho com a qual o eu percebe as formas e cores do mundo fenomênico).

E há de deixar-me apenas os cabelos.

Comentários: Esta é mais uma das incursões do poema no reino da ciência, é que segundo a biologia, os vermes não digerem a queratina, que é o principal componente dos cabelos. A decomposição dos cabelos é feita por microorganismos, num processo muito mais lento.

Na frialidade inorgância da terra.

Comentários; Aqui temos que chamar a atenção para a palavra inorgânica (não orgânica), peguem a relação inicial Carbono e componentes orgânicos e temos o ciclo EU + Carbono = Verme + Inorgânico. Ou seja, a decomposição e total dissolução do Eu, a descida deste ser do orgânico para o inorgânico, da vida sofredora para a morte, que é operada pelo seu adversário, e ao mesmo tempo libertador, o verme.
Esta é uma verdadeira descensão, que leva o EU, filho da matéria e da vida, com todos os seus sofrimentos, que esta num ambiente repugnante e mórbido para a frialidade inorgânica, para o Não Ser, para a Não vida.

Fim.

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